Arquidiocese de Braga -
2 fevereiro 2026
De conversão em conversão na Luz
Homilia do Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, na Festa da Apresentação do Senhor
1. Luz da Luz
Cumprindo as prescrições da lei judaica, Maria e José apresentam Jesus no templo de Jerusalém para ser consagrado ao Senhor (cf. Lc 2,22). Deus continua, assim, a inserir-se na história humana de forma muito concreta, nada recusando para viver a condição humana em plenitude, exceto no pecado. Aceita, por isso, cumprir as prescrições cultuais do povo judeu, tornando-se membro de pleno direito desse mesmo povo.
Ainda que na aparência a apresentação de Jesus seja igual à de tantos outros primogénitos de casais judeus daquele tempo, no concreto ela é particular, dada a presença destes dois anciãos: Simeão e Ana. Devotados à vida do Templo, eles souberam esperar o momento certo para que a promessa de reconhecerem o Messias se realizasse para eles, e esse momento é de tal modo impactante que bendizem e louvam o Senhor, falando do Menino a todos os que O esperavam (cf. Lc 2,28.38). Ninguém pode calar a alegria sentida pelo encontro verdadeiro com Deus, e desse modo, porque não passou despercebida, a apresentação de Jesus torna-se mais uma etapa da história da salvação.
2. Batizados-consagrados
São especialmente relevantes as palavras de Simeão: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; (...) assim se revelarão os pensamentos de todos os corações» (Lc 2,34-35). Estas palavras apontam para o modo como Jesus se vai apresentar como Messias, em contradição com aquilo que era esperado pelo povo: Ele não é o Messias que vem expulsar pela força o domínio romano. É, sim, aquele que vem instaurar o Reino de Deus: reino de paz e justiça, reino de fraternidade e de amor. Assim se revelam os pensamentos dos corações: pela capacidade de responder ao mandamento do amor, que Jesus nos deixou.
Todos nós, batizados, somos consagrados pelo Senhor, porque na verdade toda a consagração começa em Deus: é Ele que, primeiramente, nos quer consagrar para a santidade. Contudo, essa consagração supõe também a resposta do ser humano, pelo que podemos dizer que na consagração há uma componente vertical descendente, de Deus para o ser humano, e uma componente vertical ascendente, do ser humano para Deus.
3. Respostas renovadas na Vida Consagrada
Neste Dia do Consagrado, dou graças por todas as pessoas que na nossa Arquidiocese responderam de forma afirmativa ao chamamento a uma vocação de especial consagração a Deus. Dou graças pelo trabalho que tantas e tantos exercem na educação cristã – em escolas, colégios e encontros de catequese –; na caridade – acolhendo e cuidando daqueles que mais precisam, quer sejam crianças em risco quer sejam idosos sem família – e em tantos outros lugares e situações existenciais difíceis; sem esquecer aquelas que nos mosteiros de clausura sustentam todas estas obras através da sua oração a Deus, no silêncio da contemplação. Obrigado pela vossa dedicação ao Evangelho de Jesus Cristo.
Lanço, ainda assim, um desafio, o desafio da renovação da vida religiosa. Para tal recorro a palavras do Cardeal François-Xavier Bustillo, escritas no livro Passemos à outra margem. Por uma vida religiosa renovada. Ele escreve: “A vida religiosa aperfeiçoa-se de crise em crise e de conversão em conversão. Ela é chamada a evoluir. Este termo por vezes suscita desconfiança. A evolução está ligada à conversão interior, à capacidade de reencontrar o sentido e o objetivo de uma vida doada. (...) Redescobrir o gosto por uma vida religiosa serena e significativa é um desafio magnífico. (...) Nos momentos de cansaço carismático, é preciso passar para o outro lado. O imobilismo e a passividade diante de um mundo em constante evolução são um perigo para a vocação religiosa”.
Nesta mudança de época, como Igreja que caminha unida, somos chamados a encontrar novas respostas da vida consagrada, e respostas que falem às pessoas deste tempo. Sem receio e sem se exilar no conforto e nas estruturas tradicionais, a vida consagrada deve propor uma fé que seja vivida com audácia, alegria e fraternidade, encarando os desafios deste tempo como uma oportunidade de renovação espiritual e missionária.
+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
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