Arquidiocese de Braga -
13 maio 2026
Opinião
Martírio missionário de uma mãe
Padre Frei José Dias de Lima OFM
Quero apresentar, neste artigo, como ser missionário não é estar disposto apenas a partir, mas a dar-se totalmente em prol daquele que sente a chama missionária dentro de si, deixando que em si também não se apague essa chama. Eis um caso em que essa chama missionária incendiou o coração de um filho e se propagou ao coração da mãe.
Miguel tinha apenas doze anos, embora aquele corpo franzino acusasse menos idade, alquebrado pelo sofrimento precoce que ia minando, em segredo, a sua vida em flor. Tinha um sonho de criança, um sonho tão belo no coração de uma criança: ser padre! Ser Missionário! O ruído da máquina de costura interrompeu o seu voo sonhador e fê-lo sair do quarto para ir ter com a sua mãe. Era o tempo das velhas máquinas de costura, profissão de costureira, que ainda hoje existe, mas já rareando estas “escravas” do pedal da costura.
- Mãezinha, descanse…Tanto trabalho desde o nascer ao pôr-do-sol até agora!... Sempre a pedalar, nessa máquina, minha mãe, é de morrer!...Para quê tanto trabalho, querida mãe?
- É para ti este trabalho, meu querido filho. Sabes que, desde que o teu pai faleceu naquele acidente, não tenho outro ganha-pão para te sustentar e para te comprar os remédios…és tão doente, meu filho!...
- Com bem pouco vivo, minha mãe, não trabalhes tanto que me dói ver-te tão sacrificada.
- Meu filho, esse teu rosto tão pálido, esta tosse seca que te não larga, essas insónias, as tuas noites mal dormidas e os meus sobressaltos quando acordas durante a noite completamente encharcado no teu suor, esse “fica comigo, mãezinha!” que te sobressalta, enfim… tudo alarma a tua mãe. Queria ver-te robusto e de faces rosadas, comendo com apetite e cheio de vida, como as outras crianças da aldeia, para que se realizem os meus sonhos, seres um homem feliz, bem casado…
- Minha mãe, eu estimo muito o seu amor, sei quanto ele vale depois de Deus, toda a dedicação da sua alma bondosa, mas se eu quiser seguir outro caminho?! Disse aquela criança, apontando para o Cristo crucificado, que sua mãe tinha por cima da máquina de costura, para onde também lançou o olhar, dizendo, por sua vez:
- Oh meu Jesus, que destino darás a este meu filho? Na alegria e na dor, seja feita a Vossa Vontade. Que vale o amor de uma mãe perante o Vosso Infinito Amor? Guiai-o, meu Bom Jesus, é Vosso! Que loucura a minha cortar-lhe as asas do sonho do teu chamamento! Perdoai-me este egoísmo, bom Deus! Não, não serei eu a prender as asas que lhe destes para voar para Vós! Comovido com a mãe, que fixou a Cruz, enquanto se dirigia, naquele desabafo materno, ao Crucificado, o rapaz abraçou-se à mãe e, beijando-a na testa, e lavando as suas mãos maternas de lágrimas filiais, exclamou com sentida ternura, combatendo aquela tosse seca e teimosa que o queria impedir de falar:
- Minha mãe, perdoai se vos contrario, perdoai, porque vale tão pouco o meu pequenino coração, comparado com o teu amor, anjinho da minha vida. - Meu filho – respondeu ela, estreitando o seu menino nos braços – não será a tua mãe que te desviará dos destinos do Senhor; tu és d`Ele primeiro e só depois da tua pobre mãe. Se Deus te chama, conta comigo. Redobrarei ainda mais o meu trabalho e não darei descanso à máquina de costura, enquanto as minhas pernas aguentarem. A tua vocação é um mistério para mim, meu filho, um grande mistério. A morte trágica do teu querido pai fez com que o infortúnio batesse à nossa porta e, para não morrermos de fome, vendi a nossa casa para ter mais algum fundo de maneio e vim habitar nestas águas furtadas, sendo tu o consolo da minha amargura e a alegria dos meus olhos. Guiarei os teus passos! Mas, que te tocou, meu filho?
- A visita daquele missionário na nossa freguesia, aquelas conferências, aquele testemunho. Quero ser missionário, minha mãe! - Missionário, tu?!... Oh meu filho, tu missionário…sem forças, com essa tosse seca, com essa palidez que dói. Oh meu filho, sonho lindo, mas não é para ti, meu amor. Correr os sertões africanos em busca de almas, sofrer a fome, a sede, as doenças que por lá são muitas, dormir em cima de esteira a céu aberto, ouvindo os animais ferozes e caminhando em terra de cobras perigosas, isso é lindo, é belo, é corajoso…para quem tem saúde. Mas tu?!
- Não importa, minha mãe, é isso que eu quero. Tantas partes do mundo sem padres; tanta gente sem batismo; tanta gente que vive tão pobre, minha mãe. Se tivesses ouvido o missionário até choravas, mãezinha, e eu, que não sou de chorar, não resisti.
Aquela pobre viúva reconheceu então que tinha um filho com um coração de ouro e, consciente da gravidade da saúde do filho, indagava para si: “O meu filho querido, meu Deus, missionário lá longe ou um anjo no céu?” Passadas algumas semanas, a doença do Miguel agravou-se e a mãe dividia-se num afã sem descanso entre a cama do filho e a máquina da costura, de onde granjeava o sustento da casa. Ardendo em febre, o menino delirava e a mãe, de rosário na mão, pedia ao céu um milagre, enquanto acalmava com beijos e palavras de ternura o seu rebento frágil e à morte. De repente, o seu filho ergue a cabeça e grita, em delírio:
- Oh meu Jesus, tanta gente para baptizar e eu sem tempo, sem mãos a medir… E, naquele delírio, cai com a sua cabeça no peito da mãe, que o acolhia, dando o último suspiro nas mãos do Deus que o chamava, não para a missão, mas para o céu. A mãe, depois de uma viuvez sofrida e, agora, sem o seu filho, com ele rendido nos seus braços, suspirou numa oração:
-Meu Deus, seja feita a Vossa vontade! Vós mo destes, mas era vosso e por isso vo-Lo entrego!... E tu, lá no céu, meu querido filho, pede a Deus por esta tua mãe que, a partir de hoje, será missionária e servirá as missões que tu, tão pequenino, tanto amaste nesta terra. Não foste às missões, meu filho, mas a tua mãe lá estará por ti, com o seu trabalho. Sim, querido filho, a máquina de costura, que tanto trabalhou para ti, trabalhará sem parar, pelas tuas missões, no meio de orações e preces, até a tua mãe se esgotar de todo. Tudo pelo teu sonho, meu filho!
Que grande lição a desta mãe. Arrancado ao seu coração o filho querido, continua ela o seu sonho, numa resignação à vontade de Deus, cheia de fé e fortalecida na sua dor, pela generosidade do seu menino, que ela depositou nas mãos do “Altíssimo e bom Senhor”, entregando o resto dos seus dias à causa que o seu filho amava.
Frei José Dias de Lima, OFM
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