Arquidiocese de Braga -

10 junho 2026

Mensagem por ocasião do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas

Fotografia Cassia Tofano / Unsplash

Pedro Fernandes, Comissão Episcopal da Mobilidade Humana

Comissão Episcopal da Mobilidade Humana

Ao celebrarmos, uma vez mais, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, quero deixar, enquanto bispo ao serviço da missão da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, uma especial saudação a todas as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, assim como a tantos cidadãos e cidadãs que bebem da fonte da nossa identidade nacional e da cultura portuguesa.

Sabemos o quanto a identidade nacional e a cultura de um povo se vão construindo e entretecendo ao longo de séculos, acolhendo diferentes inspirações e conjugando diferentes origens, nem sempre lineares. Somos o que somos graças a um longo caminho, feito de memória e criatividade. A memória é importante para nos situarmos no legado que recebemos: não é por acaso que estamos onde estamos e somos quem somos. Por outro lado, a criatividade, indissociável da memória, é igualmente decisiva: as nossas trajetórias históricas foram um processo criativo, em que nos soubemos reinventar, recolhendo com gratidão o dom e reinvestindo-o em novos desafios. Entre a gratidão e a construção, eis onde nos podemos ir descobrindo e afirmando.

As identidades nacionais, de que não somos exceção, têm por isso algo de perene, em que a continuidade se deve assegurar, e algo de dinâmico, que contraria compreensões imobilistas, rígidas, da própria identidade. A tensão positiva entre o que permanece e o que vai mudando garante que não nos perdemos de nós mesmos e que também não nos cristalizamos numa autoimagem extática e fechada aos outros e à mudança. Para sermos quem somos precisamos de aceitar caminhar – foi no caminho que aqui chegámos.

Permiti-me uma partilha quase pessoal: como tantos de vós, meus compatriotas vivendo no estrangeiro, ou meus outros concidadãos de outras nacionalidades, vivendo em Portugal, também eu experimentei a crise do contacto com a diferença e também eu, como tantos de vós, fui aprendendo a fazer as sínteses, alcançadas a partir da hospitalidade que me foi proporcionada por outros e a partir do meu próprio acolhimento à novidade deles. Tal experiência propicia um grande enriquecimento: é precisamente diante da diferença dos outros que se torna mais clara a própria identidade e, ao mesmo tempo, é este contacto que nos permite a abertura e a permeabilidade que nos faz crescer e aprender, entre continuidade com o que somos e hospitalidade àquilo em que nos vamos tornando.

O contexto global contemporâneo é marcado também pela incerteza e por uma mudança nem sempre reconfortante. Espreita-nos o medo e a tentação de nos recurvarmos sobre nós, temorosos do que aí venha e do que os outros nos tragam. Diz-nos a história, e também a fé cristã que me anima, como a tantos de nós, que é no diálogo e no acolhimento que melhor encontramos a estabilidade de que precisamos e as condições para evoluir, a que aspiramos. Na sua recente encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV faz apelo a duas imagens sugestivas: a da torre da Babel, metáfora da tentação imobilista e impositiva, feita de identidades fechadas e autoritárias, com pouco espaço para a liberdade e o crescimento; e, na outra imagem, fala-nos da reconstrução da cidade santa, que, ao tempo de Neemias, se empreendeu num esforço comunitário de envolver todos, corresponsabilizar e caminhar para uma nova síntese, entre a crise e o compromisso pela paz e por uma nova realidade comunitária, centrada em Deus e nos valores da Sua Palavra. Para nós, cristãos, que assumimos a nossa cidadania na nação de que fazemos parte, este segundo modelo espelha a proposta de fraternidade anunciada por Jesus, ao serviço de um Reino de paz e de justiça, a partir de uma imagem de Deus que se revela humilde, dialogante e portador de salvação para todos. Também por aqui passa a nossa catolicidade. E é este modelo de hospitalidade que também anunciamos aos nossos concidadãos que não são cristãos. Se vivemos em experiência de emigração, sabemos o quanto custa a discriminação e a violência do preconceito, mas também o quanto é reconfortante a porta aberta, a inclusão e a permissão para caminhar juntos, aprender e, de algum modo, nos tornarmos um, com os povos que nos acolhem.

Essa experiência é inestimável para vencer as tentações populistas que nos dividem e impedem de caminhar como um povo. O olhar compassivo e solidário, que o contacto com os outros nos pode ter ensinado, tornar-nos-á mais capazes, não apenas de sair para outras terras, em busca de melhores condições (e como conhecemos as dolorosas renúncias que daí advêm!), mas também de deixar entrar, com essa hospitalidade que queremos para nós próprios, tantos outros que, como nós, procuram mais vida, mais trabalho, mais justiça, mais espaço. E como são necessários concidadãos assim!

Não é por acaso que, para nos dizermos como povo, celebramos um poeta e, com ele, a própria poesia. Camões tocou algo de essencial do que somos, enquanto povo que sabe estar e sabe partir, que sabe fazer do encontro de povos e culturas uma fonte para se assumir. Este “Reino Lusitano, onde a terra se acaba e o mar começa” (Lusíadas, I, 14) entende-se não apenas como um espaço delimitado, mas como essa “porta”, essa linha sempre desafiante entre o chão seguro que acaba e o mar incerto que começa, essa passagem que permite entrar e sair, que permite ficar e progredir. Miguel Torga dizia-o de um outro modo, fazendo Portugal dizer: “descubro na bruma o meu destino”, convidando assim para uma serena reconciliação com uma identidade que não se enfraquece por se abrir à “bruma” do que ainda não conhece e por se redescobrir no diálogo com outros, para aprendizagens ainda a construir.

A nossa história, como a dos outros, também é feita de sofrimento e de busca de justiça social, económica, de melhores condições de vida. Os “rostos de silêncio e de paciência/ Que a miséria longamente desenhou”, no dizer de Sophia de Mello Breyner, são também os nossos rostos, brancos ou negros, que assumem Portugal como a sua casa, como o lugar de onde saímos, ou para onde viemos ou onde sempre ficámos. Tantos, e todos com todos: só assim será possível “cumprir” Portugal, como sonhou Pessoa (Mensagem, I).

Entre a gratidão e o compromisso, permitam-me bendizer este plural povo português, que se celebra a 10 de junho. E nos seja permitido vencer o medo juntos, não divididos; na busca de paz e no diálogo, não nos discursos de ódio; num sério “cumprimento” de Portugal regido pela busca do bem comum e não do bem de alguns. O Portugal de sempre será o Portugal de amanhã se souber velar pela própria verdade, na defesa da vida toda e de todas as vidas. E que fique claro: a incontestável matriz cristã da identidade portuguesa impele-nos ao diálogo, que também é inter-religioso e intercultural; inspira-nos fraternidade e valorização da liberdade; convoca-nos à corresponsabilidade e à inclusão. 

A todos os nossos irmãos cristãos e a todos os outros nossos concidadãos, portugueses ou não, desejo, unido a Cristo, que Portugal se cumpra em nós e entre nós, como um lugar de paz e de justiça para todos.