Arquidiocese de Braga -
29 junho 2026
Sónia Monteiro: “seria possível” uma mulher corresponsável pela formação num Seminário
Rede Sinodal
A Rede Sinodal em Portugal apresenta aqui o episódio 16 do podcast “No coração da esperança”.
“No coração da esperança” é o nome da iniciativa em podcast da Rede Sinodal em Portugal. Apresentamos aqui o episódio numero 16 de uma parceria inovadora de comunicação que faz caminhar em conjunto Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo.
Neste episódio a entrevistada é Sónia Monteiro professora auxiliar convidada da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Publicamos aqui as suas respostas às questões da Rede Sinodal em Portugal:
O Papa Francisco dizia que é preciso desmasculinizar a Igreja. O que é que isso implica?
Implica uma mudança, uma mudança de paradigma. E não sei se estamos já preparados para essa mudança. Vou dar aqui algumas esferas ou algumas dimensões que me parece importante cuidar. Do ponto de vista teológico, do ponto de vista comunitário, do ponto de vista canónico ou estrutural, ou institucional. São vários passos que precisam de ser tomados. Decisões no contexto de uma Igreja que acarreta consigo muitos anos de história, e nem sempre está preparada para, em conjunto e em comunhão, tomar esses passos.
No século XX, João XXIII dizia que as mulheres, ou associava as mulheres aos sinais dos tempos, e que a Igreja devia olhar para as mulheres como um sinal dos tempos. Século XXI, continuamos a perguntar qual o papel das mulheres na Igreja. Não vou dizer que não houve mudanças. Sim, hoje em dia é um assunto que abre jornais, revistas. Estamos aqui a conversar, se calhar há dez anos não era bem assim. Questiono-me se não é também a sociedade a colocar à Igreja esta questão, e a fazer com que a Igreja se coloque esta questão repetidamente. Mas parece-me que a questão… E pessoalmente, incomoda-me. Há qualquer coisa com esta questão que me incomoda: Qual o papel das mulheres na Igreja? Não fazemos a pergunta ao contrário: Qual o papel do homem na Igreja? Parece-me que ainda estamos no paradigma de tentar perceber como é que incluímos a mulher na Igreja, numa estrutura que já está construída, que foi feita. E a pergunta parece: “Como é que incluímos a mulher numa estrutura já acabada?” Já como uma sociedade perfeita que quer agora incluir a mulher. E não ao contrário, de como é que nós, a Igreja, nos abrimos ao potencial da mulher, ao que a mulher tem para dar? Como é que a Igreja pode beneficiar da mulher? E, por isso, talvez esta pergunta me incomode, mas também, ao mesmo tempo, reflete aquilo que eu dizia inicialmente. Não estamos ainda na mudança de paradigma.
Que passos podemos dar para desmasculinizar a Igreja?
Já foram dados passos ao nível das lideranças, e precisamos, na Igreja em Portugal, de continuar a usar desses passos. De procurar responder a necessidades das comunidades, não só através da função e da responsabilidade dos padres, mas através de pessoas responsáveis na própria comunidade, incluindo as mulheres. Este, por um lado. Por outro lado, ao nível da formação, importa refletir porque não temos mais mulheres a estudar teologia. Porque a formação também nos capacita, e nos ajuda a assentar determinadas mesas e a pensar e a refletir em conjunto. Um terceiro passo: a própria comunidade, as iniciativas. Ou seja, não só esperar que as iniciativas venham a partir de uma regra, de uma norma ou de uma decisão, de uma autoridade. Mas também a própria comunidade precisa de exercitar a sua agência, a sua liberdade, e o seu papel. E, por isso, deve fomentar uma cultura de apoio às mulheres.
E temos assim dois movimentos: de cima para baixo, e de baixo para cima. E os dois são relevantes. As mulheres precisam de ser confirmadas pela sua comunidade de que podem tomar determinadas decisões, podem assumir determinadas responsabilidades. E essa confirmação é necessária porque não estamos habituados a ver com frequência uma mulher num púlpito. Por exemplo, algumas práticas que já são feitas: mulheres a partilhar, porque ainda estamos num modelo em que as mulheres ou os leigos não fazem homilias, fazem uma partilha. Mas estes pequenos passos de termos mulheres a participar em celebrações litúrgicas também ajudam a comunidade a mudar a mentalidade. Porque para desmasculinizar a Igreja precisamos também da mudança de paradigma, que é uma mudança cultural. Que não é só da estrutura, mas também é da própria comunidade. A masculinização ou esta cultura mais patriarcal existe nas duas vertentes. De cima para baixo e de baixo para cima. E às vezes até temos presbíteros com vontade de ousar algumas mudanças, mas a comunidade não está ainda preparada para essa mudança.
O relatório do grupo de estudo n.º 4 do Sínodo faz uma revisão da “Ratio Fundamentais Sacerdotalis” em perspetiva sinodal e propõe uma maior participação de mulheres na formação nos seminários. Num ambiente desde sempre masculino, trata-se de uma mudança radical?
Para mim, parece-me fundamental que a formação do seminarista seja o mais abrangente, integral… E diferentes perspetivas, e diferentes olhares sobre a realidade. Acho que só ajudará a tornar o formando mais capaz para servir a sua comunidade, onde estarão homens e mulheres. Por isso, não o considero assim uma mudança radical, porque acho que já está a ser feita. O que me parece é que precisa de ser mais divulgada, de falarmos mais sobre o que já está a ser feito, para reconhecermos o esforço e os passos que outros já estão a usar.
Depois, também queria dizer que esta presença das mulheres no percurso formativo dos seminaristas, parece-me óbvio que traz imensas vantagens. Mas cuidado com o paradigma da mulher como o protótipo de mãe, não é? Porque podemos… Precisamos da figura de mãe no seminário… A formadora mulher não vai substituir a mãe. É preciso também entender como é que incluímos a mulher nestas formações. Que ideal de mulher está aqui em causa? Ou estamos a falar de mulheres que também são capazes e que trazem perspetivas para a formação do seminarista? Isto é só esta nota de interrogação.
Por outro lado, queria dizer que também a própria formação dos seminaristas inclui outros momentos em que os seminaristas estão já em contacto com a comunidade. Por exemplo, a universidade, onde os seminaristas podem já entrar em contacto, ou estão em contacto, com leigos, leigas. Penso que aproveitar o que já existe, e não constantemente acrescentar mais formações… Uma formação sobre psicologia, sobre afetos dado por uma mulher, não muda radicalmente a formação. Acrescenta-se mais alguma coisa, quase como: “Falta falar sobre isto, vamos falar sobre isto”, certo? Mas existem já lugares de formação que podem ser olhados de maneira diferente, e que podem ser mais potencializados. O espaço universitário é um lugar de comunhão, de troca de ideias, de pensamento crítico. Colocar… Parece-me que procurar esses espaços, potencializar o encontro dos seminaristas com outros jovens que têm questões de fé, de moral, de política, com os próprios… Confrontar os seminaristas com essas ambiguidades, essas ambivalências, essas questões, é fundamental. Porque será essa a postura do pastor que não chega com perguntas já respondidas, mas que procura fazer caminho com uma comunidade. E o lugar da universidade pode ajudar imenso.
Por isso, mais até do que chamar mulheres especialistas em determinadas áreas, que reconheço como importante, aproveitar os lugares de formação que já existem para potenciar o encontro. Eu sugeria como um lugar a desenvolver, como um lugar que pode trazer muita coisa boa à formação. E a tender a não sobrecarregar mais os seminaristas, que me parece que estão já sobrecarregados com trabalhos pastorais, com estudos… Se calhar queremos ou precisamos de presbíteros ordenados muito rapidamente, porque fazem falta, mas corremos o risco de acelerar processos.
Acho que uma mulher responsável pela formação de um seminário… Acho que seria possível. Talvez, um primeiro passo, uma corresponsabilidade.
Uma Igreja sinodal está menos centrada no presbítero e mais na comunidade?
Parece-me que é óbvia a resposta. Ou, pelo menos na teoria. Na prática é sempre o mais difícil. Mas sim, penso que uma comunidade sinodal que reafirma a lógica de uma Igreja em caminho, de um povo de Deus em caminho, não pode estar centrada no presbítero. Por outro lado, acho que digo que muitas vezes que a preposição preferida, ou central da sinodalidade é o “com”. Saímos de uma lógica do “para”, fazer para os outros, ensinar para, dar para, ir para, de uma mentalidade, de um entendimento de missão do “fazer para”, e mudamos para o “fazer com”. E isso é o que nós temos que treinar e não o sabemos. E penso que a própria… O ministério ordenado ainda está muitas vezes numa lógica de “para” e menos “com”. E a própria realidade de diferentes formas mostra-nos o quão este modelo pode estar desgastado, não é? Li há pouco tempo, ou tenho lido diferentes entrevistas, reportagens sobre o cansaço e o “burnout” dos padres. Não é só da sociedade, por isso não estão à parte da sociedade. E isso devia-nos preocupar a todos, à comunidade inteira. E parece-me que é um bocado a realidade a chamar-nos à atenção de que as nossas expectativas, os nossos modelos, precisam de ser revistos e que hoje o testemunho não é o “muito fazer”, mas é o “fazer com”.
As comunidades, ou muitas das comunidades que eu conheço, estão habituadas a esperar que o padre, que o sacerdote lhes diga o que é necessário, o que é preciso. E é preciso mudar. Mas também uma comunidade que foi sempre ensinada a esperar que lhe dissessem o que era para fazer não muda de um dia para o outro. Por outro lado, também é confortável. Também devemos admitir que é confortável essa posição. Para muitas pessoas, é confortável dizer-lhes o que é que têm de fazer. Se é o lugar da maturidade cristã, que também o processo sinodal convoca? Poderíamos ter outra conversa, mas aqui parece-me também importante que a comunidade procure formas de ganhar este papel ativo e de agência, e que não espere que venha tudo ou que todas as respostas venham de cima para baixo.
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