Arquidiocese de Braga -

1 outubro 2026

Opinião

Cem Anos de Comunhão

D. Pedro Fernandes, CSSp

Há cem anos, o Papa Pio XI decidia criar o Dia Mundial das Missões com dois grandes propósitos: promover a formação e o envio de missionários e valorizar a conscientização e mobilização missionária de toda a Igreja. Em cem anos, muita coisa aconteceu e muitas foram as mudanças na realidade civilizacional e eclesial, mas este propósito fundamental continua válido, agora situando o Dia Mundial das Missões em outubro e dinamizando todo este mês em função desta corresponsabilização missionária. Instrumentos importantes para esta mobilização têm sido as mensagens dos Papas para este dia, assiduamente publicadas desde 1963.

Estas mensagens papais são bem a expressão de como, ao longo de mais de sessenta anos, o pensamento da Igreja relativamente à Missão sempre considerou a importância da comunhão, das relações de diálogo e encontro entre povos e sensibilidades, valorizando a escuta como lugar incontornável da missão de servir, anunciar o Evangelho, orar e santificar. A mensagem do Papa Leão XIV para o Dia das Missões deste ano debruça-se precisamente sobre isso: a unidade supõe a diversidade, já que a diversidade é o ambiente próprio da unidade: assim é com Deus, tal como Se nos revelou em Jesus, assim é connosco, se quisermos viver à maneira de Jesus, “enxertados” na cepa vivificante que Ele é.

Quando os cristãos se entendem assim, unidos na diversidade e alicerçados num Deus de Amor que sai de si para se encontrar com todos e a todos acolher, isso tem imensas consequências práticas no modo como estão presentes no mundo e vivem a própria missão. Isso é especialmente notório na realidade contemporânea em que nos situamos: se nos processos de transformação civilizacional que estamos a viver descobrimos muitas e fascinantes novas realidades, também é verdade que nos preocupam as tendências de medo e fechamento que parecem crescer nas sociedades ocidentais. O medo é o ambiente propício para se criarem narrativas simplistas que procuram exorcizar as ameaças sentidas, identificando culpados fáceis (normalmente a partir de critérios redutores e, por isso, distorcidos), e propondo, por vezes de modo muito rígido e até agressivo, medidas de exclusão de uns, para favorecer outros, de diabolização de grupos minoritários, em nome da identidade a preservar ou da segurança a salvaguardar. Um tal ambiente pode facilmente ser aproveitado por grupos populistas, ideológicos e, com frequência, com agendas obscuras que buscam poder político ou ganhos económicos.

Num tal contexto, a Igreja é desafiada a manter-se fiel a si própria e à sua missão, mesmo sabendo que tal fidelidade poderá encontrar firmes opositores fora dela e até dentro dela. Esta fidelidade à missão sempre esteve ligada à doutrina social da Igreja e ao modo como esta doutrina se articula, incontornavelmente, com a oração, com o anúncio e com as práticas pastorais, partindo do olhar lúcido e crítico do Evangelho, que promove as pessoas, a vida, os valores fundamentais que permitem que o Reino de Deus cresça.

No mundo contemporâneo, na linha do que ficou dito atrás, um dos fenómenos preocupantes é o crescimento das narrativas xenófobas, que veem nos migrantes focos de perigo e na sua rejeição um caminho de autopreservação. Os complexos mecanismos sociais, culturais e políticos destas tendências põem as pessoas migrantes na rota da violência e da exclusão: todos os indicadores estatísticos apontam para o crescimento da intolerância e da violência, em muitas latitudes, particularmente contra as minorias e os migrantes. Não deixa de ser irónico que tal tendência esteja a crescer (perigosamente!), nas sociedades ocidentais, onde, nunca como hoje, a população autóctone envelheceu e a mão-de-obra estrangeira se tornou indispensável para a sustentabilidade da economia, dos sistemas de segurança social e do crescimento e vitalidade do tecido social.

Para além das análises estritamente técnicas dos fenómenos migratórios e dos benefícios que a presença migrante traz para as sociedades de acolhimento, é importante que, na Igreja, não se perca nunca de vista os valores fundamentais de comunhão, unidade e universalidade que, ao longo dos séculos, nos orientaram (ainda que, como sabemos, com sombras e maus períodos…). A unidade, dom de Deus, que acolhemos na Igreja, onde todos são irmãos e irmãs, independentemente de origens, culturas ou línguas, é a mesma unidade universal que propomos ao mundo: propomo-la pelo testemunho de fraternidade universal que vivemos e propomo-la no anúncio claro de Jesus e do Seu Evangelho. Esta proposta é crítica e lúcida, afirmando o valor da diversidade e do respeito por todos como base para a justiça e para a viabilidade das comunidades, sejam elas eclesiais ou de outra natureza, alargando-se até ao âmbito nacional e global. A defesa da vida, desde a conceção à morte natural, implica a defesa de todas as vidas, em todos os registos – biológico, cultural, espiritual… pessoal, mas também social; individual, mas também coletivo. Todas as vidas: as europeias ou americanas, mas também as africanas ou asiáticas, as brancas ou as negras…

Os bem conhecidos quatro verbos estruturantes da proposta cristã para a gestão das relações com a população migrante são realmente importantes, não apenas para as questões da imigração, mas também, no fundo, para toda o entendimento da construção de uma família humana minimamente compatível com os valores do Evangelho. Assim, os verbos “acolher”, “proteger”, “promover” e “integrar” mantêm-se referenciais de avaliação para todas as propostas de carácter político, económico ou cultural: olhando cada proposta concreta, política, económica, cultural, e também pastoral, no que se refere às relações com os outros, e particularmente com os mais frágeis, urge sempre perguntar: estamos a acolher, proteger, promover e integrar?

Não falamos de missão de modo abstrato, com belos discursos retóricos e pouco relacionados com as questões reais das pessoas reais. Para nós, cristãos, a missão é sempre encarnada e a nossa intervenção faz-se sempre com base na atenção concreta às pessoas concretas, num pressuposto de empatia, solidariedade e compromisso com todos, especialmente com os mais frágeis. E isso em nome de Deus e do Evangelho que em Jesus Cristo nos comunicou e nos encarregou de anunciar, também com palavras… mas sobretudo com obras, olhar crítico, intervenção assertiva, posicionamentos coerentes com o Amor, de modo sereno e firme.

Que bom se este mês das missões nos ajudar a crescer nisto!

 

 

+ Pedro Fernandes, CSSp

(Bispo de Portalegre-Castelo Branco)