Arquidiocese de Braga -
12 outubro 2026
Um coração no mistério do silêncio
Homilia do Arcebispo, D. José Cordeiro, na Peregrinação Internacional Aniversária - Fátima, 12 de outubro de 2026
- Um coração inquieto é a origem da peregrinação
O evangelho hoje proclamado termina dizendo que Maria “guardava todas estes acontecimentos em seu coração” (Lc 2,51). Guardar no coração é uma atitude recorrente na Virgem Santa Maria, e não significa apenas conservar uma recordação, mas acolher os acontecimentos, meditá-los e procurar neles o sentido que Deus lhes quer dar. Isto aponta para a capacidade de olhar a realidade em profundidade e com paciência, não se deixando enredar nas malhas do imediatismo que hoje impera na nossa sociedade. Como escreveu o grande Luís de Camões: «Que dias há que na alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e doí não sei porquê» (Não pode tirar-me as esperanças, soneto).
Há no coração humano uma inquietação que não devemos simplesmente calar. Pode ser precisamente aí que Deus começa a chamar-nos. Um coração inquieto é um coração que procura e um coração que procura, quando se deixa conduzir pela graça, pode tornar-se um coração que encontra.
Um coração que guarda é um coração que vê, um coração a quem as pessoas e os acontecimentos não passam indiferentes. Assim, é capaz de perceber quando os outros estão em necessidade agindo em conformidade, e é capaz de meditar os acontecimentos para neles ver a ação de Deus e as obras que Deus realiza. Um coração que guarda é também um coração que sabe reconhecer os dons de Deus e agradecer pelas maravilhas que Ele realiza, tal como ouvimos no salmo responsorial.
- Feliz no coração de Maria
Ter um coração que guarda os acontecimentos da vida permite-nos estar mais próximos de termos a capacidade de ver a Deus, tal como nos recorda a frase bíblica que guia a reflexão proposta pelo Santuário de Fátima para o biénio 2025-2027: «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8).
Um coração puro é um coração abrasado pelo amor de Deus, e que por isso procura todas as oportunidades para se configurar cada vez mais com Cristo. Um coração puro procura o bem comum, deixando de lado os interesses pessoais; um coração puro entrega-se à missão de anunciar a Cristo porque Cristo é o seu maior bem.
A Virgem Santa Maria mostra-nos que é possível ao ser humano, com o auxílio da graça de Deus, chegar a esta união profunda com Deus, vivendo com Cristo, em Cristo e para Cristo. O seu Imaculado Coração é uma escola de discipulado, porque nos ensina a acolher a Palavra, a permanecer diante do mistério e a responder a Deus com toda a nossa vida. Recordando a Irmã Lúcia e as revelações de Pontevedra, cujo centenário estamos a comemorar, que cada um de nós possa rezar no seu coração: “Espero também na proteção do Imaculado Coração de Maria que será sempre o meu refúgio, o meu guia, a minha força, a luz do meu caminho!” (O meu caminho, vol. II, p. 286).
- Coração silente
Para concluir, hoje a Igreja celebra a memória do adolescente são Carlo Acutis, que foi canonizado pelo Papa Leão XIV no dia 7 de setembro de 2025, juntamente com o jovem são Pier Giorgio. As suas vidas ajudam-nos a reconhecer, também no nosso tempo, a possibilidade de um coração inteiramente centrado em Cristo. Na homilia o Santo Padre disse: «Ambos, (...), cultivaram o amor a Deus e aos irmãos através de meios simples, ao alcance de todos: a Santa Missa diária, a oração, especialmente a Adoração Eucarística. (...) Ambos, finalmente, tinham uma grande devoção pelos santos e pela Virgem Maria, e praticavam generosamente a caridade». É precisamente esta a lógica do coração que Maria nos ensina: um coração que acolhe Deus torna-se um coração disponível para os irmãos. A contemplação não nos fecha em nós mesmos, transforma a nossa vida.
A devoção ao Imaculado Coração de Maria converge para o centro do mistério da Páscoa, ou seja, no coração do Redentor morto na Cruz. Neste mistério de graça e de misericórdia, a redenção é maior que o pecado do mundo, como foi repetidamente dito na mensagem de Fátima e rezado por santa Jacinta Marto: «Gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que nunca me canso de lhes dizer que os amo».
O chamamento materno à penitência e à conversão é expressão do mesmo e único mistério pascal de Cristo. «Recitando a Ave-maria, somos levados a contemplar os mistérios de Jesus, ou seja, a meditar sobre os momentos centrais da sua vida a fim de que, como para Maria e são José, Ele seja o centro dos nossos pensamentos, das nossas atenções e das nossas obras» (Papa Francisco).
A verdadeira peregrinação não se mede apenas pelo caminho que percorremos, mas pelo caminho que Deus percorre em nós. Chegar a um santuário é importante, mas deixar que Deus encontre morada no nosso coração é o vital. Como Maria, o discípulo é aquele que acolhe a palavra de Deus e reconhece que tudo é dom de Deus, agradecendo com a própria vida. Onde não há amor não pode haver vida. Deus não está presente num coração ausente.
A Senhora mais brilhante que o sol continua a cintilar. «escuta-nos Maria, acredita-nos Senhora / ampara-nos, eleva-nos e mostra-nos Jesus» (Carlos P. Falcão). Pedimos-lhe que vele pela sementeira do Evangelho da Esperança e que, acolhendo no coração a Palavra de Deus, faça crescer em cada um de nós novo ardor na fé, alegria na esperança e generosidade na caridade.
+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
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