Arquidiocese de Braga -

25 outubro 2026

D. José Cordeiro: «Tudo o que não estiver ordenado a amar Deus e o próximo é peso morto»

Fotografia DACS

Arcebispo de Braga encerrou o III Renovar apelando a uma Igreja que saia de si mesma, conheça os rostos de quem se afastou e volte ao essencial da missão: amar Deus e o próximo.

O Arcebispo de Braga afirmou este domingo que a renovação pastoral da Igreja não passa por «inventar algo novo», mas por regressar ao essencial do Evangelho e colocar toda a vida das comunidades ao serviço da missão de fazer discípulos.

Na Missa de encerramento do III Renovar, D. José Cordeiro sublinhou que «tudo o que não estiver ordenado a amar Deus e amar o próximo é peso morto, por mais tradição que tenha», convidando a Igreja Bracarense a avaliar as suas estruturas, atividades e celebrações à luz da missão evangelizadora.

Partindo da transformação profunda da sociedade portuguesa, o Arcebispo observou que durante séculos o catolicismo foi dominante e a transmissão da fé acontecia quase naturalmente entre gerações. Hoje, porém, «a maioria da população é batizada, mas vive como pagã», realidade que, frisou, também se faz sentir na Arquidiocese de Braga.

A esta mudança junta-se uma sociedade cada vez mais plural, marcada pela presença de pessoas provenientes de diferentes lugares e culturas. A primeira leitura da celebração, retirada do Livro do Êxodo, serviu de ponto de partida para recordar que o acolhimento do estrangeiro, a atenção aos pobres e a defesa dos mais frágeis pertencem à própria tradição bíblica.

«Missão é fazer da Igreja casa»

Para D. José Cordeiro, uma Igreja verdadeiramente renovada deve começar por conhecer as pessoas concretas que habitam o seu território, perceber como vivem e reconhecer as suas fragilidades.

O Arcebispo evocou as dificuldades económicas sentidas por muitas famílias e perguntou de que modo as comunidades cristãs olham atualmente «para aquele que se afastou», «para o estrangeiro», «para o pobre endividado» ou para quem tem dificuldade em pagar a renda e as despesas da casa.

«O que estamos a fazer para sair do interior das nossas igrejas, procurando conhecer os rostos e os nomes de quem se afastou ou é estrangeiro e bate à porta das nossas comunidades, de quem é pobre e espera de nós generosidade e partilha?», questionou.

A missão, acrescentou, passa por «fazer da Igreja casa» e aprender uma «gramática do amor» que encontra na Eucaristia a sua fonte.

«A Igreja nasce e renasce à volta do altar», afirmou, apontando a celebração, a adoração e o silêncio como dimensões fundamentais para renovar a evangelização.

«O Amor é o que dá futuro»

Comentando o Evangelho de São Mateus, no qual Jesus apresenta o amor a Deus e ao próximo como os maiores mandamentos, D. José Cordeiro salientou que os dois são inseparáveis.

«Aquele que ama a Deus ama necessariamente o seu irmão, porque vê nele o rosto e a presença de Deus», afirmou.

O Arcebispo recuperou uma frase do escritor italiano Erri De Luca — «o futuro do rio não é a sua foz, mas a sua nascente» — para explicar que a verdadeira renovação exige um regresso permanente à fonte.

«O Amor é o que dá futuro», afirmou.

Amar Deus «com todo o coração, com toda a alma e com todo o espírito», amar o próximo como a si mesmo e «amar como Jesus» constituem, segundo o Arcebispo, «o Essencial da gramática do amor».

Renovar não é inventar outro Evangelho

D. José Cordeiro explicou ainda que os encontros Renovar promovidos pela Arquidiocese de Braga não pretendem criar «algo novo», uma vez que «o Evangelho, que é o próprio Cristo, é imutável».

O que precisa de mudar é a capacidade de anunciar esse Evangelho nos contextos contemporâneos.

«Precisamos de aprender a dizer esse Evangelho em novos modos. Para isso, é fulcral voltar ao essencial com uma seriedade e frescura novas», afirmou.

O Arcebispo comparou a renovação pastoral ao restauro de uma obra de arte: não se altera aquilo que ela é, mas retiram-se as camadas acumuladas ao longo do tempo para que possa recuperar o seu esplendor original.

A renovação não é, por isso, «uma questão de adotar mais um método», mas de cumprir efetivamente o mandato de Jesus: «Ide e fazei discípulos».

No final da homilia, D. José Cordeiro deixou uma pergunta como critério de discernimento para toda a Arquidiocese: «Esta atividade paroquial, este movimento, esta reunião, esta celebração abrem o nosso coração a Cristo e aos irmãos ou fecham-nos no nosso egoísmo?»

E concluiu dirigindo-se diretamente à Igreja de Braga: «Igreja Bracarense: naquilo que és e que fazes revelas o rosto do amor de Deus ao mundo de hoje?»


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